dezembro 06, 2005

debate (vs2)?


051205_deb_w
By a t r i u m.

Em Fevereiro deste ano, a propósito de um encontro televisivo entre José Sócrates e Pedro Santana Lopes, candidatos a primeiro-ministro, falei aqui das desvantagens claras de um determinado tipo de modelo de 'debate'.
Ontem à noite confirmei parte substancial da minha leitura.
O modo é, parece-me, errado - nada naquilo é televisão, muito pouco daquilo é entrevista jornalí­stica e é abusivo falar de debate ou até de frente-a-frente (ver, a este propósito, post no Jornalismo e Comunicação).
Como já antes disse o que presenciámos (alguns, acredito, a custo) foi uma entrevista a duas pessoas que, por acaso, estavam num mesmo estúdio. Não foi um debate. Estivemos perante um equí­voco cultural - debate é, na nossa tradição, sempre uma discussão acesa de ideias, que tem fio condutor, que tem ocorrências não previstas, que tem presença humana.
Utilizar o modelo norte-americano, apropriando por atacado o nome que por lá se dá a estes eventos, é um engano (talvez nos devesse servir de aviso a noção de que eles também chamam futebol a outra coisa...).
Publicado por lasantos em dezembro 6, 2005 10:06 AM | TrackBack
Comentários

Inteiramente de acordo. A matematização e a rigidez do modelo não combinam com o nosso jeito europeu, eu diria até latino, de debater ideias [é óbvio que não sugeriria o extremo oposto, da "peixeirada". Os extremos nestas coisas não são boa escolha.]

Afixado por: Madalena Oliveira em dezembro 6, 2005 10:54 AM

Poder-se-á acrescentar que os candidatos acentuaram as limitações impostas pelo dispositivo cénico e pela forma de gestão da palavra televisiva acordada previamente. Jogaram mais à defesa, dir-se-á. Talvez também tenha acontecido isso, mas as regras deste modelo são excessivas, remetendo para um tipo de encenação que nos retira da essência de um debate: o confronto de opiniões.

Afixado por: Felisbela Lopes em dezembro 6, 2005 11:12 AM

Até a disposição no "plateau" é ambígua. Resta saber o motivo desta opção, quem liderou as propostas aos candidatos e o porquê da ligeireza das várias candidaturas ao aceitarem. O modelo é obviamente norte-americano e, na televisão portuguesa, provém da SIC. Qual o motivo da RTP ter seguido (aceite) a ideia ? Por que razão os debates não foram todos na RTP (serviço público) ? O que faz a SIC e a TVI interessarem-se pelo debate político, a não ser as "milagrosas" audiências ? Qual a verdadeira razão de "debates" controlados ? Na minha opinião, as respostas são tão óbvias, que se desenha a ideia de que poderão vir a ser as primeiras eleições pós-25 de Abril a serem manipuladas.

Afixado por: francisco em dezembro 9, 2005 02:40 AM