O jornal Público aplica, a partir de amanhã, uma política de acesso restrito aos textos da sua edição em papel.
Como hoje explicou o responsável máximo pelo publico.pt, José Vítor Malheiros, a "decisão estava tomada há muito tempo (e chegou mesmo a ser anunciada por mais de uma vez) mas nunca tinha sido decidida uma data precisa para a pôr em prática. É isso que acontece desta vez".
Faz-se por uma questão de 'modelo de negócio' e faz-se a um preço inicialmente simbólico - 20 euros para quem aderir até ao final de Abril - para tentar não perder a posição de site noticioso mais visitado de Portugal.
Aproveito a sugestão deixada por José Vítor Malheiros quase no fim do seu texto - "Contamos, como sempre, com o apoio entusiástico e o olhar crítico (e como ele pode ser crítico!...) dos nossos leitores, com cuja ajuda esperamos continuar a fazer sempre melhor" - e deixo aqui três notas:
1 - O Público assume, finalmente, que a sua estratégia de implantação no mercado deixa de se fazer por regras muito diferentes das dos outros periódicos nacionais; o enquadramento que possibilitou a existência de projectos como o "Público na escola" foi definitivamente abandonado. Nada nessa estratégia era de curto prazo e nada nela afirmava o primado do 'modelo de negócio'. Não digo que isto - o que agora se passa - pudesse ser muito diferente. Digo, antes, que devia ser.
2 - Contrariamente ao que parece sugerir o José Vítor Malheiros, a rentabilização dos conteúdos informativos diários não é a única opção disponível. É aliás, uma opção que está a trazer problemas imediatos, com implicações futuras desconhecidas, a publicações como o El País (que, depois do crescimento inicial de assinantes, regista um acréscimo anual irrisório) ou o Wall Street Journal (que deixou de estar entre as dez publicações mais citadas por quem escreve na net nos Estados Unidos). É uma opção que diminui o estatuto digital da publicação e não vejo nenhuma forma de isso ser benéfico.
3 - Se o Público estava com vontade de realmente inovar, explorando novas opções de negócio, porque não experimentar maior abertura dos conteúdos (com a referência - via hiperlink - às fontes consultadas pelos jornalistas e com a disponibilização dos e-mails dos mesmos nas peças que assinam) e iniciar um projecto piloto de jornalismo participativo? O OhmyNews começou por ser uma coisa que despertava sorrisos cínicos e transformou-se num 'case study', inspirador de outras iniciativas em latitudes diferentes.
É curioso o facto de nem o texto explicativo da opção ser diponibilizado aos não subscritores.
É curioso o facto de nem o texto explicativo da opção ser diponibilizado aos não subscritores.
É realmente pena que o Público enverede por este caminho. Não se põe em causa os custos da edição electrónica e a necessidade de os custear. Mas esta medida, para além de uma perda de poder informativo simbólico, é também mais uma pequena contribuição para uma certa discriminação económica no acesso aos textos. É que 85 cêntimos por dia, ou 20 euros por mês (preço, registe-se "simbólico"- cito-), não são acessíveis, infelizmente, a todos os portugueses. O que não quer dizer que não haja vontade de informação. Basta ver como as bibliotecas públicas estão cheias de leitores que lêm jornais.
Afixado por: Filipe Alves Moreira em abril 4, 2005 04:44 PMA ler sobre este tema, dois textos do Dan Gillmor:
- http://dangillmor.typepad.com/dan_gillmor_on_grassroots/2005/03/the_gathering_s.html
- http://www.oreillynet.com/pub/a/network/2004/09/14/gillmor.html
Na senda do que alguns media escritos já tinham também feito o site do jornal Público passou a disponibilizaros conteúdos da Edição Impressa on-line somente aos seus assinantes.
Continuo a achar muito discutível que as publicações que optam pelo condicionamento monetário da informação on-line retirem daí proveitos, actuais e futuros, significativos.
Desde logo, porque a lógica de fechar a sete chaves a informação vai completamente ao arrepio da cultura primordial da tecnologia de informação que é a Internet, ou seja, a cultura da livre distribuição e partilha da informação, como forma de democratizar o seu acesso. E porque essa continua ser a cultura dominante, a batalha pela elitização dos acessos não será facilmente vencida, principalmente quando à excepção dos artigos de opinião, todos os outros temas dos jornais são alvo de tratamento noticioso por parte de uma miríade de media e publicações on-line, nacionais e internacionais, isentos de assinaturas.
Depois, porque concentrando-se os adoptantes principais da prática da Internet nas faixas mais jovens, restringir o acesso aos conteúdos virtuais do jornal não será concerteza a melhor forma de atrair e cativar futuros leitores para o jornal.
Por outro lado, para quem não aderir à assinatura, será expectável um menor tempo de permanência no site, logo também um menor tempo de exposição a mensagens publicitárias, sendo portanto provável que ocorra um abaixamento do preço que as marcas pagam pela publicidade, dando azo ao famoso mecanismo de auto-regulação de mercado, tão prezado pelo Director do Público.
Ainda neste capítulo, os efeitos da diminuição de acessos e do menor tempo de permanência on-line não se farão sentir simplesmente na publicidade externa. Também o impacto da publicidade interna acerca da imensa panóplia de publicações apêndice que os próprios jornais de há algum tempo a esta parte tem vindo a aderir, e que segundo consta, são responsáveis por uma fatia considerável das receitas dos mesmos, será reduzido.
É por isso que para o apuramento final do saldo desta opção não bastará somar os créditos das assinaturas conseguidas. Terá que haver uma contabilidade bem mais abrangente
interessante o comentärio anterior. Tb me parece má ideia fechar por completo a edição impressa do jornal, no entanto, discordo em 2 pontos:
-a net é livre mas n'ao o é o trabalho de quem a produz. O ideal seria um grande projecto à la Linux mas até esse surgiu por oposição à M§. Não me choca que se pague pela informação, a boa informação tem valor e quem a pague - não havendo substitutos à altura.
-A publicidade online é um negócio marginal num jornal como o público. Não tenho dados mas não é dificil de perceber que a publicidade no site não é muito apelativa, a um leitor habitual passa até despercebida (porque este sabe onde clicar e onde está a informação). Comparar por exemplo com sites online cheios de banners e de todo o tipo de truques...
Afixado por: homemDASneves em abril 5, 2005 10:26 PM