O Pedro Fonseca retomou hoje a conversa sobre a vigilância da actividade jornalística. O seu post foi bastante extenso e, de uma só vez, avançou argumentação relativa ao post do Manuel Pinto e ao meu.
No essencial - afinal de contas - parecemos concordar em muito do que é substantivo e discordar apenas, talvez, na forma como entendemos a participação cívica.
Pedro Fonseca, parece-me, assume uma visão muito pessimista daquilo que os cidadãos podem fazer com os instrumentos de "voz" à sua disposição. Eu, embora aceitando que muito do mau não vai desaparecer, prefiro sempre pensar que muito do bom é saudável demais para se perder.
Mas vamos então a alguns esclarecimentos:
1 - Fico com a ideia de que o Pedro acredita que, por uma questão de justiça e de qualidade, o escrutínio deve ser organizado e institucionalizado (via um Obercom que não o que existe ou via um espaço como o Clube de Jornalistas). Eu não vejo nenhuma incompatibilidade na existência simultânea de orgãos como estes e de olhares individuais de observação crítica da actividade jornalística (seja via a tradicional carta ao Director, a mais nóvel Carta ao Provedor ou, ainda, num qualquer blogue).
2 - O Pedro parece ainda desejar que os blogues tivessem um papel mais interventivo e mais responsável. Nisso estamos de acordo. Mas o mesmo podia dizer da nossa vida social, na generalidade. Também a queria mais substantiva e mais responsável. Se calhar temos os blogues que merecemos, assim como temos os jornais, as rádios, as televisões, as estradas, os políticos e a bendita Guarda Republicana.
3 - O escrutínio individual da actividade jornalística. Não creio que haja qualquer problema de abuso de liberdade no acto de ler com atenção, elogiar, apontar falhas ou avançar sugestões a um qualquer jornalista. Isto - e é disto que falamos, só disto - parece-me ter o potencial para aproximar os receptores às dificuldades da profissão (humanizando-a), para desenvolver canais alternativos de informação (novas fontes) e para melhorar a qualidade geral do trabalho jornalístico. O extracto que cita, sobre a Suécia, parece-me esclarecedor. Talvez por cá as pessoas tenham mesmo aderido tanto aos blogues porque, por exemplo, as edições online dos nossos maiores diários continuam a não integrar links para documentos nos seus textos e a não disponibilizar o endereço electrónico de quem escreve (para apenas citar duas pequenas medidas). E talvez por isso - como acontece no mais das vezes face ao desconhecido - a reacção primeira seja, sobretudo, de crítica pesada, muito pouco construtiva. Percorra o jornalismo o caminho necessário e talvez as reacções sejam diferentes.