O meu post de ontem mereceu comentários pertinentes de duas pessoas - Rogério Santos e Pedro Leal - que muito respeito. Assim sendo, sinto-me na obrigação de melhor explicitar a minha ideia de partida.
Quando falo do 'medo' falo, sobretudo, do receio do desconhecido, da desconfiança relativamente a esse desconhecido e da resultante omissão da sua existência (nas citações, por exemplo) como se isso o tornasse invisível.
O jornalismo português tem, relativamente aos blogs (e poderá
dizer-se que, relativamente a alguns casos, existe até reciprocidade), uma
postura ambígua e tensa.
Será verdade que o jornalismo tradicional (nas suas muitas matizes de qualidade) já desta forma age com actores outros que não os weblogs, mas isso não deve distraír-nos da questão de fundo.
O que realmente me preocupa nesta questão (e, aí, os blogs até serão bem
mais acessórios ao argumento) é a difícil adesão do jornalismo português à
noção de que algo de fundamental está a mudar no modelo global de
comunicação. E terá sido - admito - sobretudo por isso que usei a palavra
'medo'.
Nunca parti do princípio de que os blogs fazem jornalismo ou de que aspiram
mesmo a ser substituto e/ou alternativa (segundo os mesmos parâmetros de
funcionamento). Aliás, muito do que escrevo no Atrium versa, precisamente,
essa minha convicção de que 'as águas' são distintas e, quando muito,
episodicamente complementares.
Aí, portanto, estamos amplamente de acordo.
Uma última nota sobre 'o fim do jornalismo'. Acredito que se o jornalismo tradicional perceber o que está à sua frente e se ancorar - com mais empenho, profissionalismo e honestidade intelectual - naqueles que são os seus valores e procedimentos de referência, as pessoas vão sempre perceber no jornalismo algo de distintivo, algo que o separa de outras formas de comunicação uni/inter/multi pesssoal.
Se o caminho for o da negação, o da defesa de um terreno que foge debaixo dos pés, receio que a descredibilização da profissão e - isso sim, relevante - do seu lugar numa sociedade livre e participada se torne inevitável.
Quando há espaços de comentários num blogue, o leitor/utilizador deve deixar a sua opinião, de modo a que haja circulação e tomadas de posição sobre um tema.
Foi o que aconteceu a semana passada no seu blogue e no de Jornalismo e Comunicação sobre a declaração de Bolonha e o ensino do jornalismo, e que é uma maneira fecunda de nos pormos a pensar. Assim, formamos a nossa opinião e ajudamos a construir a opinião pública. Eu - como muitos de nós - uso-a. Eis que o faço de novo.
Dos posts de ontem e de hoje, gostaria de colocar dois assuntos, que não são novos mas que me têm levado a pensar um pouco.
O primeiro é que o fenómeno dos blogues não é sinónimo de jornalismo. Há, na realidade, uma visibilidade elevada (exagerada) dos blogues de jornalismo, mas por reflexo desta profissão, que dá muito espaço à sua própria actividade. Há blogues muito interessantes que se dedicam a outras áreas. Penso por exemplo em http://janela-indiscreta.blogspot.com/ ou em http://linguagemdasflores.blogspot.com/.
O segundo assunto é o que diz respeito à profissão de jornalista - e logo ao que se entende por jornalismo tradicional. Um jornalista sobre o qual escrevi recentemente, Alberto Bessa, lutava em finais do séc. XIX pelo reconhecimento social e económico do jornalista, defendendo a entrada do "repórter" dentro da categoria de jornalista. Depois, mais ou menos pelas décadas de 1930-40, a rádio concedeu espaço ao jornalismo. O mesmo sucederia quando apareceu a televisão. Ora, se formos bem precisos, cada um destes meios tem uma especificidade de jornalismo. Como o classificamos?
Com muita probabilidade, cada um de nós dá mais apreço ao jornalismo escrito, o mais antigo e, penso, mais tradicional. Mas o modo de escrever hoje quase nada tem a ver com o que se escrevia - para não irmos muito atrás - antes ou depois de Abril de 1974. A meu ver, quer antes quer depois dessa data existiam formas de escrever que hoje estão datadas, são anacrónicas.
Estas minhas ideias são pouco claras, resultando, como disse, de alguma reflexão, mas isso carece de mais aprofundamento. E um blogue, apesar de acima ter defendido a importância do comentário, não é o meio mais apropriado para discutir estas questões, dado o carácter individualista do blogue - o que levanta relações de poder entre o seu proprietário e os leitores/utilizadores. Talvez o melhor para discutir estas coisas - e elas são muito importantes - seja voltarmos a uma lista de discussão sobre os temas que mais importam analisar: jornalismo tradicional, fenómeno dos blogues, ensino do jornalismo, outros. Uma das fraquezas dos blogues é o seu lado de ruído, pois cada um de nós pode ampliar um erro ou uma tendência.
Afixado por: Rogério Santos em outubro 4, 2004 03:10 PMAgradeço, uma vez mais, o comentário e partilho muitas das dúvidas que são apontadas.
Embora o blog não seja - uma vez mais concordo - o lugar mais correcto para as desfazer, creio que cumpre, ainda assim, uma função relvante - põe-nos a todos em contacto com opiniões muito diversas e expõe-nos a um escritínio salutar.